Mitos e verdades sobre a castração
A castração (cirurgia que consiste na remoção dos testículos no caso dos machos – orquiectomia - e dos ovários e útero nas fêmeas
ovariohisterectomia -) ainda é um assunto bastante polémico para os proprietários de animais de estimação, ficando muitos deles
escandalizados quando o veterinário a aconselha. Está associada à imagem de cães e gatos gordos e letárgicos, "cirurgia cruel", "mutilação do
animal",etc…
Mas…
Já reparou na quantidade de cães vadios que andam pelas ruas?
Já parou para pensar na quantidade de doenças (as chamadas zoonoses) que eles podem abrigar e posteriormente transmitir aos seres
humanos?
E o problema não se resume somente aos animais que já estão nas ruas. O problema real é o aumento desta população, sendo este aumento
determinado não somente pela reprodução destes animais, mas também pelo acasalamento indesejado de animais que possuem dono. Muitos
proprietários, não tendo conhecimento nem condições de lidar com as constantes ninhadas nascidas em sua casa, recorrem ao abandono dos
cachorrinhos e gatinhos, contribuindo para o aumento da população de animais vadios, flagelo que todos conhecemos.
O que fazer? Ser conivente com os serviços camarários e o sacrifício em massa dos animais, ou adoptar uma política consciente de castração?
É preciso desvendar o que há de falso e verdadeiro sobre a castração e deixar os preconceitos sobre esta cirurgia de lado. De seguida
desvendo os mitos mais frequentes sobre esta cirurgia, esperando esclarecer os leitores.
"A castração deixa o animal gordo"
Falso. A castração pode causar aumento do apetite, mas se a ingestão de alimento for controlada e o dono não ceder às vontades do animal, o
peso será mantido. Observa-se que animais castrados antes de completar 1 ano de
vida, apresentam menos sinais de aumento de apetite e menor tendência a se tornarem obesos. A obesidade após a castração é causada, na
maioria das vezes, pelo dono e não pela cirurgia.
"A castração provoca uma mudança de comportamento nos animais”
Falso. É da crença popular que os animais castrados ficam mais mansos e preguiçosos. O animal ficará letárgico após a castração apenas se
adquirir muito peso. Gordo, ele se cansará facilmente e não terá a mesma actividade. A letargia é consequência da obesidade e não da
castração em si. Vários trabalhos tem sido feitos, comparando em competições o comportamento e performance dos animais inteiros com
animais que foram castrados após a puberdade: quando receberam a mesma alimentação e cuidados
que os animais inteiros, não mostraram nenhuma diferença. Por outro lado, em
relação à "vadiagem", ou seja, ao facto dos animais (principalmente os machos) fugirem constantemente de casa, procurando fêmeas no cio ou
brigas com outros machos, provouse que estes hábitos diminuem em 90 % dos casos após a castração, além de que esta reduz
consideravelmente a agressão entre machos e a marcação de território com a urina. Vale a pena ressaltar que outros tipos de agressividade,
principalmente no caso doscães de guarda, não são afectados: alguns proprietários acham que os cães de guarda não devem ser castrados,
mas a castração não afecta os instintos naturais de um cão para proteger a sua casa e a família. Não se esqueça também que os animais na
fase adulta vão, gradativamente, diminuindo a sua actividade, não devendo este facto ser associado erroneamente à castração.
"A castração mutila o animal, é uma cirurgia cruel!"
Falso. A cirurgia é simples e rápida e o pós operatório bastante tranquilo, principalmente em animais jovens. É utilizada anestesia geral e o
animal retoma a sua actividade normal 24 horas após a cirurgia. Não há nenhuma consequência maléfica para o animal que continua a ter uma
vida perfeitamente normal.
"A castração evita os tumores de mama nas fêmeas e os problemas de próstata nos machos"
Verdadeiro. O tumor mais comum de cadelas sexualmente intactas, é o tumor de mama. Ele é o segundo tumor mais frequente em cadelas e o
terceiro mais comum em gatas. Está provado que a sua incidência cai para 0,5 % quando a cadela é castrada antes do primeiro cio. Já nas
gatas, a ocorrência de tumores de mama é sete vezes maior em fêmeas não castradas do que nas castradas. Além dos tumores de mama, a
castração precoce previne virtualmente quase todos os outros tumores relacionados com o sistema reprodutor, tanto nos machos como nas
fêmeas, assim como outras doenças do sistema reprodutor. Por exemplo, uma doença muito comum em cadelas e gatas, principalmente
naquelas que receberam hormonas para evitar o cio (pílulas anticoncepcionais), é o Complexo Hiperplasia Endometrial Quística / Piómetra
(grave infecção uterina), doença que se não for tratada a tempo, ou seja, se não for realizada a ovariohisterectomia (extracção dos ovários e
útero), pode levar à morte.
Em relação aos machos, está provado que depois de castrados, têm menos
probabilidades de desenvolver problemas de próstata e tumores testiculares.
“ A castração provoca incontinência urinária nas fêmeas e obstrução uretral nos gatos”
Falso. Sabe-se ainda pouco em relação aos efeitos das hormonas sexuais sobre o sistema urinário em cães e gatos. Porém, sabe-se que os
problemas antigamente atribuídos à castração, como o aumento da predisposição a obstrução uretral nos gatos, ou a incontinência urinária nas
cadelas, ainda merecem maiores esclarecimentos. A incidência de obstrução uretral em gatos é a mesma em gatos castrados ou não, embora
os mecanismos dessa patologia ainda não tenham sido esclarecidos. Com relação à incontinência urinária nas cadelas, ela pode ocorrer de
semanas a anos após a castração, assim como em cadelas inteiras. Vários problemas anatómicos e fisiológicos estão associados ao problema,
não se conhecendo ainda uma causa definida. Se realmente há influência hormonal, não há evidências que sugiram que a castração
potencializa o problema.
"O macho castrado não tem interesse pela fêmea"
Falso. Muitos machos castrados continuam a ter interesse por fêmeas, embora ele seja menor comparado a um animal não castrado. Se o
macho é castrado e há uma fêmea no cio na casa, ele pode chegar a cruzar com ela normalmente, sem que haja fecundação.
"Castrando os machos eles deixam de urinar pela casa"
Verdadeiro. Uma característica dos machos é demarcar o território com a urina. Se o macho, cão ou gato, for castrado antes de um ano de
idade, ele não demarcará território na fase adulta. A castração é indicada também para animais adultos que demarcam território urinando pela
casa.
"Deve-se castrar a fêmea após ela ter tido crias"
Falso. Ao contrário do que alguns pensam, a cadela não fica "frustrada" ou "triste" por não ter tido filhotes. Se considerarmos a prevenção do
cancro de mama, como foi dito anteriormente, o ideal é castrar o quanto antes.
Resumindo:
Porquê castrar os machos?
1. Evitar fugas.
2. Evitar o constrangimento de cães "agarrando" as pernas ou braços das visitas.
3. Evitar demarcação do território (urinar pela casa).
4. Evitar agressividade motivada por excitação sexual constante.
5. Evitar tumores testiculares e problemas de próstata.
6. Controlo populacional, evitando o aumento do número de animais de rua.
7. Evitar a perpetuação de doenças geneticamente transmissíveis como epilepsia, displasia coxo-femural, catarata juvenil, etc.. (em animais que
tiveram o diagnóstico dessas e outras doenças).
Um macho que sente por perto uma fêmea em cio, pode demolir portas e saltar vedações, vagueando pela rua à procura de uma fêmea. Os
animais castrados fogem menos de casa e com isso levam uma vida mais segura, sem os perigos da vida na rua, para os quais um animal
habituado a estar em casa não está
preparado, inclusivamente com o risco de ser atropelado ou apanhado pelos serviços da câmara (já agora fica aqui um conselho: coloque
sempre na coleira do seu animal uma chapa com o seu telefone; se ele for apanhado poderão contactá-lo, evitando assim a eutanásia provável
do animal, caso ele não
seja reclamado ao fim de poucos dias). A castração diminui também as brigas com cães vadios reduzindo assim o risco de ferimentos e
infecções e a possibilidade de contracção de doenças transmissíveis. Além do perigo do passeio pelas ruas, existe o risco do seu animal macho
cruzar com alguma fêmea da rua, o que, sem contar com o aumento da população de animais vadios, comporta o perigo da transmissão de
doenças venéreas. Uma doença venérea muito comum nos cães é um tipo de tumor maligno (tumor venéreo transmissível).
Porquê castrar as fêmeas?
1. Evitar os acasalamentos indesejáveis, principalmente quando se tem um casal de animais de estimação.
2. Evitar os tumores de mama.
3. Evitar piometra (grave infecção uterina) em fêmeas adultas.
4. Evitar episódios frequentes de "gravidez psicológica" e suas consequências, como as mamites.
5. Evitar os desagradáveis cios.
6. Controlo populacional, evitando o aumento do número de animais vadios
7. Evitar a perpetuação de doenças geneticamente transmissíveis como epilepsia, displasia coxo-femural, catarata juvenil, etc.. (em animais que
tiveram o diagnóstico dessas e outras doenças)
É errado o conceito de que a castração só deve ser feita em cadelas de rua. Se o proprietário não tem intenção de acasalar a sua fêmea, seja
ela de raça ou não, é desnecessário enfrentar-se com os incomodativos cios a cada 6 meses, riscos de gravidez indesejável e, principalmente,
de doenças como tumores de mama e piometras.
A castração resulta numa fêmea mais limpa em casa. Todos os proprietários de fêmeas sabem como é incomodativa a hemorragia que ocorre
no cio. Removendo os ovários e o útero da sua cadela este problema é eliminado.
A castração garante uma vida adulta bastante saudável para os animais e bem mais tranquila para os seus donos.
Fonte: animalmed